Parceira: Agência Parceira RGB Comunicação

25/08/2017

Cães de raças pequenas, como Yorkshires Terriers, Schnauzers, Malteses, Shih-tzus e Dachshunds, são os mais sujeitos. Em gatos, não há predisposição, apesar de atingir mais Persas e Himalaios.

Devido ao afeto por nossos pets, tomamos cuidados especiais e esperamos que tenham vida longa e saudável. Para isso, devemos ficar atentos a sinais que podem indicar que algo não vai bem. Aqui, falaremos sobre uma doença do fígado que pode trazer uma série de dificuldades aos animais. Entre elas, a de crescimento.

O fígado é o maior órgão do corpo, responsável por muitas funções. Importante na transformação de proteínas, carboidratos, gordura, e na desintoxicação do organismo. Está sujeito a várias doenças, congênitas (quando o animal já nasce com elas) ou adquiridas.

Podem ocorrer alterações denominadas desvios porta-hepáticos – ou Shunt. A doença, apesar de pouco divulgada, é comum no dia a dia veterinário. Consiste na presença de um vaso anormal, que, escapando do fígado, não permite a necessária desintoxicação. Pode ser classificada como extra ou intra-hepática, e como simples ou múltipla, quando há mais de um vaso anormal.

O Shunt é a anomalia mais comum do sistema hepatobiliar e a causa mais frequente de encefalopatia hepática – quando o cérebro se deteriora devido a altas quantidades de substâncias tóxicas no sangue, o que resulta na diminuição do crescimento do animal. O aparecimento dos sintomas é geralmente nos primeiros seis meses de vida, mas existem casos tardios.

A origem do Shunt adquirido não é conhecida. O que se sabe é que há predisposição para raças de pequeno porte: Yorkshires Terriers, Schnauzers, Malteses, Shih-tzus, Dachshunds, entre outros. Já nos gatos, embora acometa mais Persas e Himalaios, não há essa predisposição. Deve-se atentar para a idade, que é uma pista diagnóstica.

Os sinais clínicos são falta de apetite, perda de peso, vômito, crescimento tardio, frequência cardíaca baixa, febre e intolerância a anestésicos ou tranquilizantes. As alterações mais graves ocorrem nos sistemas nervoso central, gastrointestinal e urinário. No sistema nervoso, há perda ou irregularidade da função muscular. O animal anda em círculos, pode ter mudanças de comportamento, cegueira, convulsões e entrar em coma. O estômago muda de lugar devido à perda de peso.

Nos gatos, há alteração no olho, no som cardíaco e inchaço com líquidos no abdômen. Sinais gastrointestinais incluem vômitos, diarreia, emagrecimento e secreção abundante de saliva, o que pode ou não estar associado a sintomas no trato urinário, como aumento de urina, urina com sangue, dificuldade de urinar, obstrução da uretra e formação de cristais de urato de amônia na urina. Os animais podem aumentar a ingestão de água.

Os veterinários devem se atentar a alterações no comportamento e pedir hemograma, exames das enzimas do fígado – ALT, AST, FA, ácidos biliares – e verificar se há excesso de amônia. Realizar Raio-X abdominal, ultrassom e portografia mesentérica operatória e, nos casos em que este último não deva ser o exame escolhido, a cintilografia porto-renal. No caso de animais agressivos e com comportamento alterado, um exame de ultrassom com doppler é capaz de identificar a doença.

O tratamento é muito importante para melhorar o quadro de desidratação e para a eliminação da urina, devido à amônia e substâncias tóxicas, além da necessidade de fluidoterapia (soro), administração de antibióticos, dieta com baixo teor de proteínas, administração de um laxante – a lactulose – e cirurgia para correção do desvio.

O tratamento clínico é considerado benéfico, por duas a três semanas antes da cirurgia, a não ser que haja complicações que exijam uma cirurgia de emergência. Embora não existam dados disponíveis que confirmem que o período de estabilização é necessário, a maioria dos clínicos concorda que não se deve anestesiar e operar um paciente com sinais de encefalopatia hepática. Quando há estreitamento anormal da veia portal, a cirurgia não é indicada. O tratamento clínico é a única opção apropriada, podendo aumentar a sobrevida. Exames periódicos são essenciais para avaliação do tratamento. Entretanto, a qualidade de vida pode ser variável. 

Uma dieta comercial de suporte também é fundamental neste processo de cuidados. Ela deve ser hipoproteica, com ajustes ao longo do tempo (antes e depois da cirurgia). Atualmente, nós, veterinários, contamos com produtos inovadores para nutrição hospitalar líquida (que não entopem as sondas de nutrição, o que não acontecia antigamente), com apenas (14%) de proteína e hipercalóricos (1 Kcal/ml), de alto valor biológico (Whein Protein), sem lactose, enriquecidos com vitaminas, com minerais e maltodextrina, para que haja energia constante e segura e de alta digestibilidade.

A gastrite deve ser tratada com uso de antiácido adequado, como omeprazol, e protetores de mucosa, como sucralfato. Antibióticos por via oral são administrados para diminuir a população bacteriana intestinal, produtora de amônia. A escolha dependerá do clínico, que poderá utilizar ampicilina, amoxicilina e metronidazol.  

A lactulose é administrada para diminuição do pH do cólon, impedindo a absorção dos íons de amônio, inibindo o metabolismo de proteínas e aminoácidos, aumentando a excreção fecal de nitrogênio e diminuindo o tempo de trânsito no cólon. A eficácia a longo prazo é discutível, pois o sangue portal continua sendo desviado do fígado para a circulação sistêmica, mantendo a atrofia hepática, sendo o tratamento sintomático, amenizando os efeitos da encefalopatia hepática.

O tratamento cirúrgico utiliza modernas técnicas. A resposta em cães é muito boa, caso eles sobrevivam ao pós-operatório. Um fator de importância é ele ter menos de um ano de idade. Em gatos, embora a correção cirúrgica pareça ser de maior risco em relação aos cães, há relatos de acompanhamento pós-operatório.

 

Rita de Cássia Silva Godoy

Médica Veterinária graduada pela FAMED, de Garça-SP

 

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