Parceira: Agência Parceira RGB Comunicação

12/03/2018

Podemos combinar estratégias para aumentar a quantidade de água que os gatos bebem

Descobrir que seu gato sofre de uma afecção urinária pode ser uma causa de frustração muito grande, sobretudo se esses problemas urinários levam a atendimentos de emergência ou se a situação se repete frequentemente.

Compreender a espécie felina, principalmente a sua origem, sua fisiologia e o seu comportamento, pode auxiliar na gestão dos problemas urinários de seu gato, o que faz de você, tutor, uma importante parte do tratamento e da prevenção de recidivas.

 

Figura 1. Órgãos do trato urinário inferior dos gatos (Fonte: Grupo Nefro Uro VET)

 

O sistema urinário é responsável pela produção e eliminação da urina, sendo formado por dois rins (órgãos capazes de filtrar as “impurezas" do sangue”), dois ureteres que levam a urina até a bexiga (órgão responsável por armazenar a urina) e a uretra (órgão único que leva a urina ao meio externo, sendo inserida no pênis ou vagina). Os rins e os ureteres formam o sistema urinário superior, ao passo que a bexiga, a uretra e o pênis/vagina formam o sistema urinário inferior.

As afecções ou doenças do trato urinário inferior (que acometem a bexiga, a uretra e o pênis ou a vagina) são muito frequentes em felinos, e isso acontece por três razões principais:

1- Como são originados da África, tendem a beber pouca água e a produzir urina muito concentrada, o que predispõe à formação de cristais e cálculos.

2 - Muitos gatos são sensíveis a mudanças ambientais ou da sua rotina. Isso mesmo! Gatos podem ter “inflamação” da bexiga (ou mais tecnicamente cistite instersticial) causada por estresse. A origem da doença é extremamente complexa e envolve vários mecanismos de ação que estabelecem relação entre os sistemas urinário, nervoso e endócrino, além de influências comportamentais. A grosso modo, considere que gatos, quando expostos a situações de estresse, produzem um hormônio chamado cortisol, o qual “destrói” a camada de proteção da bexiga, provocando a inflamação da parede, ou seja, cistite!

3- Gatos machos possuem a uretra comprida e fina, situação perfeita para pequenos cálculos ou tampões obstruírem a uretra.

Como identificar uma afecção do sistema urinário inferior do meu gato?

Quaisquer afecções que atinjam a uretra e/ou a bexiga, que incluem as infecções do trato urinário, neoplasmas (câncer), plugs uretrais, cálculos, malformações anatômicas, distúrbios comportamentais, alterações neurológicas, traumatismos e a cistite intersticial felina, fazem parte do mesmo grupo denominado DOENÇA DO TRATO URINÁRIO INFERIOR DE FELINOS (DTUIF).

Todas essas afecções costumam apresentar os mesmos sinais clínicos:

- Hematúria: presença de sangue na urina;

- Polaciúria: urinar em pequenas quantidades e maior número de vezes;

- Periúria: urinar em local inadequado;

- Estrangúria: micção demorada e dolorosa, podendo ser seguida de vocalização;

- Disúria: dor ao urinar;

- Lambedura do pênis ou abdômen;

- Pênis edemaciado (com edema);

- Alterações de comportamento e humor;

- Obstrução uretral: o animal produz urina, porém não consegue eliminá-la.

Saber identificar esses sinais e procurar rapidamente o médico veterinário pode salvar a vida do seu felino!

O que eu posso fazer para evitar afecções do trato urinário do meu gato?

1 - Estimule-o a beber mais água

Gatos domésticos são frequentemente sedentários e é cada vez maior a incidência de animais em sobrepeso ou obesos que geralmente bebem pouca água. Estas considerações geraram nos últimos anos motivação para estudos e discussões com maior importância sobre a influência destes fatores, especialmente a reduzida ingestão hídrica, como cerne da origem de urolitíases (cálculos), cistite intersticial e reincidência de obstruções uretrais.

Podemos combinar várias estratégias para aumentar a quantidade de água que os gatos bebem:

- Oferecer alimento úmido de qualidade com mais frequência (aqueles que contém aproximadamente 70% de água). Estudos relatam que gatos alimentados com ração úmida apresentam menos recidivas dos sinais clínicos quando comparados àqueles que recebem ração seca como dieta única.

-Espalhar diversos potes de água pela casa, preferencialmente em locais tranquilos e trocar várias vezes por dia. Acrescentar pedrinhas de gelo na vasilha de água pode ser benéfico, quando em alta temperatura ambiente.

- O número mínimo de potes de água na casa deve ser sempre superior ao número de gatos. Ou seja, se são 3 gatos, você precisa de 3 +1 = mínimo de 4 potes;

- Os potes de água também podem ter muita influência no estímulo de ingestão de água: sempre prefira os de boca larga, pois gatos odeiam quando seus bigodes encostam-se à beirada do potinho!

- Alguns animais são muito estimulados por fontes de água corrente. Existem algumas fontes já próprias para eles no mercado.

2 - Controle do estresse

Como já falado, o estresse está fortemente associado à cistite nessa espécie. Por isso, umas das estratégias é o enriquecimento ambiental: fornecer brinquedos, caixas, prateleiras, por exemplo, ajuda na redução das recidivas.

Muitas vezes, gatos ansiosos e estressados devem fazer uso de antidepressivos, muito bem escolhidos pelo médico veterinário, de forma, também, a contribuir com a redução do estresse!

Apesar de gatos serem mais independentes, precisam de atenção. Tire alguns minutos do seu dia para eles!

3 - Controle do peso

Controle sempre o peso do seu gato, com a dieta adequada a cada tipo de paciente. Estudos realizados garantem que animais obesos são mais predispostos a apresentarem DTUIF e outras doenças, como a diabetes mellitus.

4 - Atente-se para a condição higiênica

Manter a caixinhas de areia sempre limpas, em locais agradáveis com pouco barulho e movimento, pode ser uma bom incentivo para aumentar a frequência de micção. O cálculo do número de caixinhas de areia segue o cálculo do número de potes, ou seja, o número de gatos do ambiente mais um.

5 - Siga corretamente a prescrição do médico veterinário

É sabido e frequentemente relatado pelos tutores dos felinos que os processos dolorosos são fortemente marcados no transcorrer da doença do trato urinário inferior. A analgesia (controle da dor) deve ser realizada respeitando as particularidades da espécie, tanto pelas escolhas de drogas e suas doses quanto pelas vias de administração (isso vale para qualquer medicamento). Por isso, nunca medique o seu paciente por conta própria!

E nunca esqueça: realize check-ups frequentemente!

Você já viu que as doenças urinárias podem levar a quadros graves e, muitas vezes, à morte de seu gato. Portanto, a prevenção é muito importante. Exames de sangue, de urina, pressão arterial e exames de imagem, como ultrassonografia e/ou ecocardiografia, são essenciais no monitoramento e definição de estratégias preventivas de doenças, principalmente se o animal tiver mais que 6 anos.

Converse sempre com seu médico veterinário de confiança, de modo a definir a frequência ideal de reavaliações. Geralmente, sugere-se que gatos filhotes e adultos façam check-ups anualmente, enquanto os gatos idosos devem realizar em menor intervalo de tempo, por exemplo, a cada 6 meses.

 

Leandro Z. Crivellenti

Médico veterinário graduado pela Universidade Federal de Uberlândia - UFU (MG). Residência em Clínica Médica e Cirúrgica de Pequenos Animais pela Universidade de Franca (SP). Mestrado em Medicina Veterinária pela UNESP-Jaboticabal. Doutorado em Medicina Veterinária pela UNESP-Jaboticabal, em conjunto com o Serviço de Patologia Renal da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FMRP/USP), e estágio e pesquisa internacional junto à The Ohio State University, Ohio, EUA. Pós-doutorado na área de Nefrologia com a participação das instituições UNESP-Jaboticabal; FMRP/USP e OSU, Columbus (EUA). Atualmente, é professor do programa Pós-graduação em Ciência Animal da Universidade de Franca (UNIFRAN). Atuação e experiência em Clínica e Cirurgia de Pequenos Animais com ênfase em Nefrologia e Urologia. Membro da diretoria do Colégio Brasileiro de Cirurgia e Anestesiologia Veterinária e diretor científico do Colégio Brasileiro de Nefrologia e Urologia Veterinária. Coordenador do grupo de pesquisa em Nefrologia e Urologia Veterinária credenciado pelo CNPq.

 

Larissa Ayane do N. Braz

Médica veterinária graduada pela UNESP-Jaboticabal. Estágio internacional junto à École Nationale Vétérinaire d’Alfort, Paris, França. Atualmente, é discente do Programa de Aprimoramento em Clínica Médica de Pequenos Animais - Universidade de Franca (Unifran).

 

*Artigos assinados são de responsabilidade de seus autores e não refletem, necessarianemte, a opinião da Planeta Pet